A imunoterapia revolucionou o tratamento do câncer em diversos tipos tumorais. Mas há um grande obstáculo no caminho de milhões de pacientes: o custo inacessível. Para muitos, especialmente em países de baixa e média renda, a imunoterapia tradicional se tornou um luxo inatingível.
A boa notícia é que estudos recentes e sólidos mostram que é possível utilizar doses mais baixas de imunoterapia com resultados comparáveis aos das doses padrão. Esta descoberta pode transformar a realidade do tratamento oncológico — e é sobre isso que falaremos neste artigo.
✅ O que é imunoterapia em dose baixa?
A imunoterapia em dose baixa refere-se ao uso de quantidades reduzidas de medicamentos imunoterápicos, como o nivolumabe ou o pembrolizumabe, mantendo sua eficácia clínica. Em vez das doses fixas aprovadas pelas agências regulatórias (como 240 mg ou 200 mg), os estudos exploraram doses ajustadas por peso ou doses fracionadas mais acessíveis, como 20 mg ou 40 mg a cada 3 semanas.
📊 O que dizem os estudos mais recentes?
Confira os principais resultados de quatro estudos publicados entre 2023 e 2025:
1. Revisão Sistemática – JCO Global Oncology, 2025
- Avaliou 4 estudos com 435 pacientes asiáticos com câncer de pulmão (NSCLC) e renal (RCC).
- Doses como 20 mg ou <2 mg/kg mostraram sobrevida global semelhante à dose padrão.
- Economia estimada: US$ 57.000 por paciente/ano com pembrolizumabe em dose por peso. 📌 Referência: Hoyek et al., JCO Global Oncology, 2025
2. Estudo Randomizado em Câncer de Cabeça e Pescoço – JCO, 2023
- Nivolumabe 20 mg + quimioterapia metronômica tripla (TMC)
- Aumento da sobrevida em 1 ano de 16,3% para 43,4%
- Sem aumento da toxicidade 📌 Referência: Patil et al., Journal of Clinical Oncology, 2023
3. Estudo de Vida Real com 100 Pacientes – ASCO Post, 2024
- Avaliou o uso real de ICIs em Mumbai
- ORR (taxa de resposta objetiva) de 76% com dose baixa
- Sobrevida mediana de 6,8 meses 📌 Referência: Patel et al., JCO Global Oncology / ASCO Post, 2024
4. NSCLC Estágio III – JCO Global Oncology, 2025
- Pacientes inelegíveis para terapia local receberam quimioterapia + nivolumabe 40 mg
- ORR de 73,1% vs 39% com quimioterapia isolada
- PFS significativamente maior (p = 0.0014) 📌 Referência: Marimuthu et al., JCO Global Oncology, 2025
💰 Quanto se pode economizar?
O uso de imunoterapia em dose baixa pode gerar economias impressionantes:
| Droga | Dose Padrão (EUA) | Dose Reduzida | Economia por paciente/ano |
|---|---|---|---|
| Pembrolizumabe | US$ 192.637 | US$ 134.846 | US$ 57.791 |
| Nivolumabe | US$ 197.159 | US$ 172.514 | US$ 24.645 |
Fonte: Hoyek et al., 2025
Além disso, um regime completo como o TMC + nivolumabe 20 mg custa apenas US$ 4.370/ano na Índia, o que representa 5% a 9% do custo da imunoterapia padrão — viabilizando o acesso pelo sistema público.
🧠 Por que a dose baixa pode funcionar?
A explicação vem da farmacodinâmica dos ICIs. Estudos mostraram que 70% da ocupação dos receptores PD-1 ocorre com doses tão baixas quanto 0,3 mg/kg. Ou seja, é possível atingir o efeito biológico desejado com frações da dose tradicional, especialmente em pacientes com menor peso corporal.
🌍 Impacto nos países em desenvolvimento
Segundo dados da OMS, mais de 70% das mortes por câncer acontecem em países de baixa e média renda. Tornar a imunoterapia acessível a esses países pode salvar milhões de vidas.
Esses estudos mostram que há um caminho possível, prático e seguro para democratizar o acesso à imunoterapia.